Resenha ‘Vox – Christina Dalcher’

Oi ooooi gente! Eu já falei algumas vezes, aqui no Além, o quanto eu amo romances distópicos. Muito mesmo! Então, sempre que eu vejo algum lançamento nesse âmbito eu corro pra comprar. Mas Vox foi MUITO mais que apenas isso. Já adianto que tenho esse livro desde novembro e sentia que eu precisava esperar para ler e, acredito mesmo, que li no momento certo. Então, acompanhem a sinopse e vamos para a resenha…

O governo decreta que as mulheres só podem falar 100 palavras por dia. A Dra. Jean McClellan está em negação. Ela não acredita que isso esteja acontecendo de verdade.
Esse é só o começo…
Em pouco tempo, as mulheres também são impedidas de trabalhar e os professores não ensinam mais as meninas a ler e escrever. Antes, cada pessoa falava em média 16 mil palavras por dia, mas agora as mulheres só têm 100 palavras para se fazer ouvir.

…mas não é o fim.
Lutando por si mesma, sua filha e todas as mulheres silenciadas, Jean vai reivindicar sua voz.

“Uma recriação apavorante de O conto da Aia no presente e um alerta oportuno sobre o poder e a importância da linguagem.” – Marta Bausells, ELLE

Jean McClellan é uma neurocirurgiã silenciada. Literalmente. Ela vive em um novo modelos dos EUA, onde os Puros se espalharam e pregam suas crenças. As mulheres perderam todos os seus direitos. Elas não podem mais trabalhar, não podem ler, não podem escrever sequer uma receita culinária e, o pior, elas mal podem falar. Cada uma delas têm um limite de 100 palavras por dia. E, se passar dessa cota, não vai ser nada legal. Já dá pra começar o “terror” que temos pela frente!

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Conforme Jean vai nos contando o horripilante modo como as mulheres passaram a ser tratadas, vamos ter flashs do passado, de como toda essa situação começou a ser desenhada. No seu tempo de faculdade, ela tinha uma melhor amiga, ativista, que lutava pelos direitos feministas e sempre apontou o perigo que era ela não se envolver com política, não ter os olhos abertos sobre o que aconteceria.

Você pode tirar muitas coisas de uma pessoa: dinheiro, emprego, estímulo intelectual, qualquer coisa. Pode tirar até suas palavras, mas isso não vai sua essência.
Mas tirar a camaradagem é diferente.

Também vamos vendo como os Puros foram sendo introduzidos nas escolas, começando a cativar e conquistar os alunos, principalmente os homens, com ensinamentos de como as coisas deveriam ser, mediante o que aquele grupo acredita ser o certo. Até o momento onde chegam até o local onde ela daria uma palestra sobre o estudo mais importante e dispensam todo mundo. Daí para frente, pouco tempo leva até as mulheres passarem a andar com os contadores.

Fato é que é muito difícil para a nossa doutora perder tudo aquilo que sempre batalhou e amou ter, ela não conversa mais com o maridos e seus três filhos homens, além de sofrer ao ver que a sua filhinha de 5 anos mal fala, quase não tem um vocabulário desenvolvido, que ela sequer pode lhe contar uma história de dormir. Vai ser entre Jean e Sonia algumas das cenas de mais partir o coração nessa história. Afinal, a mãe não está sofrendo por ela, mas por ver o maldito contador até no braço de sua filhinha. Além disso, ainda acaba enfrentando problemas com seu filho Steven, que está dominado pelo lado dos Puros.

As Bíblias ainda são permitidas, se forem do tipo certo.
A de Olívia é rosa; a de Evan é azul. Você nunca os vê trocar, nunca vê o livro azul nas mãos de Olívia enquanto ela está sentada à sombra com sua xícara de chá adoçado ou vai aos cultos no outro carro.

Mas, as coisas vão começar a mudar quando o irmão do atual presidente sofrer um grave acidente e for afetado em uma parte que a Dra. McClellan estudava e tinha sucesso. Sendo assim, começa uma investida de membros do governo para que ela aceite trabalhar para eles, conseguindo a recuperação do paciente. Obviamente, sua primeira reação é não aceitar, afinal, ela tem todos os motivos para se opor a eles. Mas, ela para e pensa nas vantagens que ela pode adquirir com isso, tanto pra ela, quanto para Sonia, sua filha.

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Sendo assim, Jean volta ao laboratório junto com sua antiga equipe, com sua amiga e de Lorenzo, que além de tudo, roubou seu coração. Enquanto eles vão ter que esconder o que sabem, eles vão começar a desconfiar do que o governo pode estar aprontando, quando Jean acabar vendo documentos que seu marido, Patrick, possuí. E, dessa forma, vão começar a destrinchar qual plano maior pode estar sendo traçado. O que nos resta saber, é se eles vão conseguir descobrir tudo a tempo e conseguir mudar o jogo.

– Você pode começar pequeno, Jeanie – disse ela. – Vá a alguns comícios, distribua panfletos, participe dos debates. Você sabe que não precisa mudar o mundo sozinha.

Vou me interromper sobre o plot da história, mas preciso falar da construção de Vox, antes de mais nada. Conforme vamos entendendo toda a situação em que os personagens se encontram e como foi o caminho para chegar lá, entendemos como a política e religião tem ligação direta com tudo o que houve. Pessoas despreparadas assumindo o poder, fanáticos religioso usando a bíblia e o que acreditam para controlar a vida dos outros. O que deixa tudo mais aterrorizante, afinal, a gente vê muito disso no vida real. Até metade do livro, foi uma leitura difícil. Não por ser ruim, longe disso. Mas porque li coisas que ouvimos semanas atrás, praticamente. Chorei, tremi de nervoso, precisei parar e respirar. Depois da página 150, tudo ficou mais calmo, com possíveis planos para melhorar a situação.

Mas, quero falar de Jean agora. Ela é uma mulher forte, mas que foi deixando tanta coisa passar, acreditando que nunca algo de ruim poderia acontecer. Agora precisa lidar com o silêncio, com um marido funcionário do governo e por quem ela não sente mais amor, filhos com quem não consegue se comunicar, principalmente o mais velho, que está completamente dominado pelos Puros, chegando a desrespeitar a mãe. Ela não consegue sequer falar com os pais, já que eles moram na Itália. Acompanhamos ela tentando traçar planos para melhorar, descobrindo coisas e precisando lidar com a tristeza de ver a situação que contribuiu para chegar, quando ela foi omissa ao que estava ao seu redor. Mas, que vai tentar mudar a situação até o fim, ainda que isso possa custar muito caro. A melhor relação que ela tem no livro é com Sonia. Eu me emocionei em diversas cenas entre mãe e filha. Ainda teremos outros personagens com importantes participações, mas que serão reveladas até o fim mesmo.

– Há uma resistência?
O mundo parece doce quando digo isso.
– Querida, sempre há uma resistência.

Falando sobre a escrita da Christina, ela é cativante, envolvendo e incômoda. Ela toca em temas que não são fáceis, além de não medir palavras para tratar deles. Ela mexe em feridas atuais, transvestidas de um futuro distópico, que não é tão impossível como muitos outros que já nos foram apresentados. Ela não veio para escrever uma história com um fundo de romance, ainda que tenhamos uma amostra disso, ela veio para escrever algo que incomode, que desperte, que nos faça questionar.

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Sobre a diagramação, a Arqueiro trás aquele padrão “simples é mais” que ela mantém. As folhas são amareladas, com letras e espaçamentos confortável para a leitura, sem muito enfeite. A capa é branca, o que eu amo, mas suja muuuuuuuuito rapidamente. Mas, os detalhes são com detalhe em verniz e o grande X vermelho tem explicação no meio da história. Para quem comprou na pré venda, ainda ganhou uma bolsinha.

E minha culpa não começou quando assinei o contrato de Morgan na quinta-feira. Minha culpa começou há duas décadas, na primeira vez em que não votei, nas vezes incontáveis em que disse a Jackie que estava ocupada demais para ir a uma de suas passeatas, fazer cartazes ou ligar para meus congressistas.

Vox não é uma leitura fácil, como já disse. Especialmente porque a autora escolheu traçar paralelos entre acontecimentos de um futuro distópico, mas com temas discutidos na nossa sociedade atual. Isso pode incomodar e acredito que essa é mesmo a intenção de Christina. Além disso, é mais um livro que se torna quase uma leitura fundamental para mulheres. Mas, não só para nós. Para homens também. Quem sabe assim, fica mais fácil entender quando uma de nós diz “estou com medo”. Sempre são as mulheres que perdem ser direitos, que são aterrorizadas, amedrontadas e silenciadas. Mas nós não seremos. Não sem lutar. Não sem ter uma Jean dentro de nós. Além disso, de modo sutil, o livro vai mostrar que os homens precisam lutar junto para derrubar o sistema. Não se pode virar as costas para um problema que amordaça metade de um país.

Mesmo com todo choro, todo nervoso, Vox me trouxe mais ainda reflexão, mais certeza ainda de que preciso continuar lutando pelo o que eu acredito. Torço para que ele se propague entre os leitores e que todos usem ele como um instrumento de reflexão e não apenas como “mais uma leitura”. Deixo minhas cinco Angélicas para o livro de Christina Dalcher.

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10 comentários em “Resenha ‘Vox – Christina Dalcher’

  1. Menina,
    como eu amo este blog. Adoro como tudo é claro e bem explicadinho! É como se eu tivesse lendo o livro junto de vcs! Ainda mais em um assunto tão necessário e pesado como este.
    Cinco bonequinhas pra essa crítica!
    Agora, tem uma coisa q não entendi que foi esta parte “(conferir o nome da amiga)”. Acho q passou batido na revisão, neh? Se for isso, pode relaxar, acontece comigo o tempo inteiro (algumas de vcs já leram textos meus e sabem muito bem q nos mineiros não somos lá essas coisas como escritores).
    Adorei, como sempre, as lindas fotos.
    Um abraço

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  2. Eu também adoro esses enredos distópicos Raíssa, apesar de muitas vezes me dar uma grande raiva. De pensar que essas coisas podem realmente vir a acontecer, fico até angustiado. Vou ler esse livro, fiquei bem curioso.

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  3. Achei a temática do livro muito interessante, você foi escrevendo a resenha e eu pensando na nossa situação política, inevitável não pensar, não fazer uma única comparação, assim como fui mês passado assistir uma peça de teatro distópica, uma comédia, e a cada risada era um tapa na cara, pois eles misturaram aspectos do presente e do passado numa visão de como seria o RJ em em 2065, acho que obras assim são válidas para que tenhamos consciência de tudo o que pode acontecer

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  4. Oi Raíssa, tudo bem?

    Desde o lançamento deste livro que eu estou desejando-o, mas já li algumas opiniões não tão positivas que acabaram me deixando com um pé atrás. Ler a sua opinião voltou a me animar a realizar esta leitura. Gosto muito deste enredo onde as mulheres possuem apenas 100 palavras por dia para falar e saber que vai trazer como isso interfere na vida dessa mulher e destrinchar mais coisas por trás, me interessa. Gosto dessa reflexão acerca do enredo, já que isto é um dos pontos que sempre me faz amar uma leitura. Com certeza devemos utilizar bem a nossa “voz” e devemos impor mais o que pensamos, e lutar sempre para isso. Adorei sua resenha, como sempre você arrasou no texto, parabéns!

    Beijos!

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