Cinco Motivos Para Assistir: ‘Até que a Morte nos Separe’

Ooooi pessoal! Hoje vim trazer pra vocês uma matéria sobre um documentário que eu assisti essa semana e que mexeu muito comigo. Eu amo passar o dia assistindo a esse tipo de série, mas confesso que eu sinto que eu deveria ter assistido a essa mais devagar. Até que a Morte nos Separe traz casos de assassinatos passionais, especificamente feminicídio, onde homens matam suas companheiras/ex-companheiras. Não é uma série fácil de ver, mas acho muito necessária. Mas antes que eu me estenda, confere a sinopse e o trailer da primeira temporada:

“Os crimes “passionais” que mais chocaram a imprensa e a opinião pública do Brasil são recriados por psicólogos e investigadores. Os aspectos culturais, o ambiente e outros detalhes de cada caso são explorados e contextualizados de forma inédita e reveladora.”

Antes de qualquer coisa, aviso que Até que a Morte nos Separe não é uma série fácil de assistir. Tem que ter estômago. É doloroso para qualquer pessoa ver o que alguém é capaz de fazer por ciúme ou pelo que diz ser amor. Nós, que lutamos pelo fim do feminicídio que só aumenta cada dia que passa, ao assistirmos essa série, só temos o reforço de tudo que acreditamos. É revoltante ver o quanto a vida de uma mulher é nada na mão de um homem que pensa que ela é sua. É revoltante ver que muitas pessoas colocam a culpa na mulher pelo que ela sofre. É revoltante ver que as leis do Brasil são tão fracas para esse tipo de crime tão horrível. É revoltante ver o quanto a nossa cultura vê isso como ‘normal’, como algo que ‘acontece’ e que ainda encontra justificativas para esse tipo de ação.

Transmitido pelo canal A&E Brasil, Até que a Morte nos Separe tem, no momento, 3 temporadas com 5 episódios/casos cada uma. As duas primeiras temporadas (2012 e 2015) já estão disponíveis na Netflix. Já a terceira temporada (2018), ainda está em produção e sendo transmitida pelo canal A&E Brasil. Com uma narrativa que lembra bastante outra série que eu trouxe para vocês, a Investigação Criminal, onde nos é apresentado diversos tipos de homicídios, aqui teremos apenas o Feminicídio, que nada mais é do que o assassinato de uma mulher, apenas por ela ser mulher. Um dos maiores causadores disso é o nosso machismo estrutural, que coloca padrões em uma mulher e qualquer uma que saia do esperado, acaba sendo aceitável o que ela ganhe, seja um abuso físico ou psicológico, seja um soco, seja um estupro, seja um assassinato.

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Mas antes que eu acabe falando demais antes de dar meus motivos para assistir à série… bora começar?

1. Crimes reais brasileiros: Assim como em Investigação Criminal, esse é um forte motivo para assistirmos essa série. Sabe aqueles casos super famosos, que chocam o Brasil todo e que a gente fica esperando toda notícia possível para sabermos o que aconteceu, quem é o assassino, se ele já foi preso etc? Pois bem, no decorrer das investigações, isso acaba sendo esquecido por conta da demora em se resolver os casos. Alguns dos crimes retratados na série só foram ter seus julgamentos anos depois, então isso acaba se perdendo no nosso dia a dia. Aqui, nós teremos todo o contexto da história, o antes, o durante e o depois. Assim como os depoimentos dos envolvidos de ambas as partes, tanto da vítima quanto do acusado, com o bônus de especialistas em psicanálise que nos traz explicações claras sobre a mente humana, sobre amor, ciúmes, paixão, posse. E, assim, eu já puxo para o próximo motivo.

“Ciúmes não é prova de amor.”

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2. Entrevistas: O fato de ter várias pessoas envolvidas dando entrevista incomoda um pouco, mas é necessário. Por que incomoda? Bem, não temos apenas o lado da vítima, temos o lado do assassino também. Então, nós acabamos vendo pessoas defendendo e dando justificativas a esse tipo de crime. E isso me deixou tão brava durante os episódios que eu quase parei de ver. Pra mim, não existe justificativa para se tirar a vida de alguém. NUNCA. Seja homem ou mulher. Não importa o que tenha sido feito. Ainda mais nesses casos onde a pessoa está totalmente indefesa, sem chances de fuga, sem esperar por isso.
Aí, vem algumas pessoas defender esse tipo de atitude e, na maior parte das vezes, colocando a culpa nas ações da vítima antes do assassinato. É nauseante! Sério! Tiveram casos dos advogados de defesa falarem que o acusado pagava a pensão do filho e isso demonstrava o caráter dele, o quanto ele era um boa pessoa, que era uma pessoa do bem, de coração bom…. OI???!!!! O ser tirou a vida de alguém e ainda alegam que a pessoa é do bem? Não entra na minha cabeça… Aqui eu tive a certeza de que eu não sirvo para ser advogada, porque se eu tiver que defender alguém que eu sei que é culpado de matar uma pessoa de forma tão covarde, muitas vezes manchando a memória dela, culpando-a por coisas tão fúteis para justificar as ações do meu cliente, eu nunca mais ia conseguir dormir à noite.
MAS, como eu disse anteriormente, ainda assim é necessário. Isso faz com que o documentário seja imparcial, o que é bom. Não é interessante para mim quando vejo coisas que parecem querer me manipular de alguma forma. É importante ter todos os lados de uma história para que nós mesmos possamos ter uma opinião sobre determinado assunto.

“Quem ama não mata. Só mata aquele que ama, mas está em estado patológico da consciência.”

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3. Feminicídio: acho que posso dizer que, pra mim, esse é o principal motivo para assistir essa série. Ela nos traz tudo sobre o que a gente já conhece, mas acaba ignorando no dia a dia. Relacionamentos abusivos, violência doméstica, ódio disfarçado de amor, mulheres que sofrem todos os dias etc. Todo mundo se choca e se solidariza quando acontecem grandes casos como o da Eloá que foi sequestrada por dias e assassinada pelo ex-namorado que não aceitava o término; da Eliza Samudio que, por pedir pensão para o amante, teve a morte como resposta e até hoje não se sabe onde o corpo dela está; ou da Andreia, aqui de Guarulhos/SP, que se jogou da janela para salvar o próprio filho da fúria do ex-marido, mas depois que a mídia para de falar sobre o caso, todo mundo coloca a indignação no bolso e segue a vida. Enquanto isso, muitas mulheres continuam com a vida assombradas com a possibilidade de ser a próxima. Feminicídio é real. Ele é sustentado pela nossa cultura machista e nós precisamos mudar isso.
A abertura dessa série é tocante. Ela nos traz em números quantas mulheres morrem no Brasil assassinadas por seus companheiros e também nos traz uma animação que associa o abuso dos relacionamentos tóxicos, mascarado pelas partes importantes e especiais do casamento. Se assistir apenas a abertura, já é suficiente para o desconforto surgir.

“Não adianta dizer que matou por amor, que isso é a maior farsa que eu já ouvi. Claro que alguns criminosos passionais já disseram isso, mas amor houve lá no começo da relação. Depois, aquele amor se transformou em ódio profundo e é o ódio, o desejo de vingança, que leva o passional a cometer o homicídio. Nunca, jamais, o amor! Que, não se sabe se ele chegou a sentir um dia, mas se sentiu, já acabou.”

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4. Justiça Brasileira: todo mundo sabe que a justiça anda a passos de tartaruga no Brasil, mas nesse documentário eu fiquei agoniada com as demoras dos julgamentos acontecerem. Tiveram casos em que se passam anos para que o assassino vá preso. ANOS de impunidade. Alguns, ainda ficaram com os filhos durante um tempo, como se fossem pais exemplares. É revoltante! Fora as penas que parecem sempre tão pequenas e injustas. Trouxe esse motivo para demonstrar a minha infelicidade com essa leveza de punição. A verdade é que é muito fácil matar no Brasil e usar desculpas toscas para amenizar a pena. Por exemplo, o caso do Antônio Carlos Durval que matou a companheira, Rosângela Aparecida Gomes, com 52 facadas alegando legítima defesa. Quem dá 52 facadas em legítima defesa? E detalhe, ele já tinha matado uma outra namorada antes, alegando a mesma coisa e tinha ficado APENAS 1 ano e alguns meses preso. Só aí já dá pra entender o quanto a revolta é inevitável durante os episódios dessa série, né?

“Ela precisa estar empoderada. As telenovelas precisam tratar disso. Precisam empoderar a mulher. Dizer, olha, existe a delegacia da mulher, vá na delegacia mais próxima. Entenda que essa violência não é natural. Um homem não nasceu pra dominar uma mulher, nem uma mulher nasceu pra servir o homem.
É dessa maneira que a gente vai transformando uma cultura.”

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5. Machismo Estrutural: o que eu mais gostei na série são as entrevistas dos especialistas falando sobre o machismo estrutural que é enraizado em nós desde que nos entendemos por gente. Esse machismo faz com que certas atitudes femininas sejam motivos para que elas sofram de alguma maneira. O jornalista e ex-deputado Jean Willys dá um show em todos os momentos em que ele aparece para falar sobre todas essas “desculpas” usadas para matar mulheres. 
Matou porque era prostituta, porque era “maria-chuteira”, porque namorou outra pessoa, porque seguiu em frente com a vida, porque não queria mais continuar no relacionamento, porque descobriu que o filho não era dele, porque queria pensão pro filho, porque isso, porque aquilo… motivos banais. Não que exista algum motivo correto para matar alguém, mas alguns são tão fúteis que não entra na minha cabeça que isso aconteça com tanta frequência. E, pior, que existem pessoas que defendem esse tipo de atitude. 

“A posse sobre a mulher. A ideia de posse, de que ela me pertence e que, por isso, eu posso matá-la cada vez que ela trai essa relação, ela vem desse caldeirão cultural. Ela vem dos mitos que sustentam o nosso imaginário, né? Porque uma mulher só merece respeito quando ela encarna a figura de Maria, a exaltada, que concebe virgem, a que não faz sexo. Então, quando uma mulher, trai o marido ela tá se deslocando de um lugar de Maria, pra um lugar de Eva, e isso é imperdoável. E ele acha, portanto, que pode matar essa mulher.”

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Enfim, esses são os meus cinco motivos para assistir essa série documental. Não é uma série fácil de ver. Não é fácil imaginar a angústia e os momentos de terror que essas mulheres devem ter sentido em seus últimos momentos de vida. Meu coração dói por cada uma delas, não importa se suas atitudes eram algo que eu aprovo ou não. É de vidas que nós estamos falando. Vidas que foram interrompidas por nada. Famílias que foram destruídas por perderem alguém que eles amam, sem motivo algum. Muitas vezes, por pessoas que eles confiavam. Eu rezo e imploro a Deus que eu nunca precise passar por uma situação dessa, nem como vítima, muito menos como família da vítima. Luto para que, um dia, isso seja raridade, não seja corriqueiro, não seja natural ouvir por aí que fulano matou a mulher. Eu tenho fé num futuro melhor. Mas só com informação e empoderamento, isso será possível de verdade. Essa cultura machista precisa mudar, pra ontem!

E lembre-se: não tem essa de briga de marido e mulher, não mete a colher.
Mete SIM.
Não se omita! Denuncie! Ligue 180.
Você pode estar salvando uma família, uma criança de ficar órfã, UMA VIDA.
Faça sua parte!

 

 

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