Resenha ‘Rede de Sussurros – Chandler Baker’

Oi ooooi gente! Hoje eu trouxe a resenha de um livro que, até agora, já entrou na minha lista de melhores de 2020. Rede de Sussurros vem com todo o peso da era #MeToo, sobre segredos que mulheres acabam guardando por medo e muito mais. O livro também fez parte do Clube de Leitura da Reese que, além de apoiar autoras mulheres, também é ativa no Time’s Up. Enfim, vamos a sinopse e tentativa de passar tudo o que esse livro é!

Há anos, Sloane, Ardie e Gracie trabalham juntas em uma empresa de roupas esportivas. As três sempre se ajudaram, passando por promoções empolgantes, reuniões intermináveis, casamento, maternidade, divórcio e os desafios impostos pela política no escritório. Elas também têm seus segredos e cada uma fez algo de que se arrepende.
Com a morte repentina do presidente da empresa, tudo indica que Ames, o chefe delas, será alçado à liderança da companhia. Ames é um homem complicado, que as três conhecem há muito tempo e que sempre esteve cercado por sussurros a respeito do tratamento que dispensa às subordinadas. Esses sussurros vinham sendo ignorados, varridos para debaixo do tapete e acobertados por aqueles que estão no poder.
Depois de descobrirem que Ames adotou uma conduta inaceitável em relação a uma nova funcionária, elas decidem falar. E essa decisão provoca uma mudança catastrófica no escritório. Mentiras serão reveladas. Segredos serão expostos. E nem todo mundo sobreviverá. Suas vidas — como mulheres, colegas, mães, esposas, amigas e até adversárias — estão prestes a mudar drasticamente.

Sloane, Ardie e Gracie trabalham há anos, como advogadas, na Truviv, uma famosa marca de roupas esportivas. Todas em cargos altos, importante, mas enfrentando uma barreira: serem mulheres no mundo executivo. Enquanto enfrentam esses problemas, as três se tornam muito unidas e amiga. Dividem os problemas e aflições referentes a empresa, casamentos e divórcio, maternidade e outros segredos.

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Nosso pontapé é a morte do presidente da empresa e a possível ascenção de Ames Garret a esse posto. Elas sabem que ele não é a pessoa indicada para o cargo. O cara é misógino, machista, adora silenciar mulheres. Mas, não só isso. Ele adora importunar mulheres. E com a chegada de uma novata na empresa, principalmente, Sloane e Ardie ficam de olho em seu comportamento. E, quando percebem que Katherine se tornou a mais nova vítima, as três amigas decidem agir.

– É problemático porque, quando permitimos que meninos chamem uma menina de “louca” de forma tão casual, bem, isso dá a todas as outras pessoas a permissão para que não acreditem nela.

Paralelo a isso, vamos descobrindo outras duas coisas. A primeira, é que corre uma lista, uma espécie de ‘rede de sussurros’, onde mulheres colocaram os nomes de homens com comportamentos condenáveis. Sejam abusivos, machistas, misóginos, silenciadores, manipuladores etc. Comportamentos que coloquem outras mulheres em risco. Quando essa lista chega as amigas, o nome de Ames não está nela, mas não por muito tempo. Também vamos ter uma espécie de investigação de uma morte.

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Eu não quero falar muito sobre a trama em si, porque acho importante saber o mínimo possível sobre ela. Então, não quero arriscar soltar algo grande. O principal é saber que vamos girar em torno dessas três amigas entenderem que não podem mais guardar segregos. Só que, também é perigoso deixar que eles sejam revelados. Será que elas estão preparadas para tudo, na intenção de impedir que um homem como Ames chegue ao poder?!

Éramos sempre as exageradas, as histéricas, palavra literalmente derivada do latim “hystericus”, ou “do útero”. Na verdade, uma grande quantidade de tempo e de palavras tinha sido dedicada à arte do descredito. Adjetivos como “mandona”, “briguenta”, “nervosa” e “intensa” se tornaram desculpas sutis destinar a ajudar a pera de audição seletiva.

Como diz a sinopse, Chandler escolheu guiar a trama de seu livro de estreia, pelo movimento #MeToo, que denunciou diversos homens poderosos. Na vida real, mais de 200 deles foram denunciados, com Harvey Weinstein encabeçando. Sem dúvidas, Baker soube se valer do movimento sem, literalmente, citá-lo. Com a lista, ela deixa esse movimento representado, enquanto as protagonistas vão dando mais voz as situações, além de outras participações.

Quanto sua narrativa, ela soube brincar com ela, sem perder a linha. Sempre fico com medo quando autoras tentam alternar sua forma de narrar, porque pode dar errado. Mas Chandler não deixa a peteca cair. Alguns capítulos, ela começa em primeira pessoa, com uma mulher, falando por todas. Parágrafos que fazem a ilustração perfeita do feminismo, da luta que vem sendo travada sobre o que mulheres passam nas carreiras, em suas vidas pessoais, em seus relacionamentos, em suas maternidades. Ou seja, ela fala sobre o assédio, mas fala sobre outras pontos também, pontos que as mulheres precisam aceitar caladas para garantir seu lugar na sociedade, no emprego, enquanto engolem sapos e travam batalhas diárias. Então, ela volta com a sua narrativa de terceira pessoa, dando ênfase a personagem que é o foco do capítulo.

Fracassar era um luxo que não podíamos nos permitir, acorrentadas umas às outras daquele jeito, nosso destino trancado à chave. […]; uma acusação falsa e éramos mentirosas, todas. Porque quando nós falhávamos, era por causa dos nossos cromossomos, e não por causa de uma crise no mercado, uma campanha publicitária ineficaz ou simples má sorte.

Preciso dizer que a autora também trás um trio de protagonistas que não são perfeitas. Cada uma delas tem um segredo ou atitude que podem (e vão) ser julgadas e que podem virar a mesa contra elas. E, durante a leitura, tive uma certeza de que isso foi proposital. Porque, na nossa realidade, acabamos usando uma régua moral para julgar a outra e rolar o tal questionamento “será que ela é vítima mesmo?”. Isso foi o que mais me tocou durante a leitura. Ler como as coisas são rapidamente revertidas e nós vemos as vítimas no lugar do réu. Como acabam culpabilizadas, de algum modo, no meio de toda situação.

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Como disse, também existe uma investigação acontecendo, que nos é informada na primeira página. Até uma certa parte do livro, podemos ficar em dúvidas sobre do que se trata, até a hora que a bomba chega. E Chandler também soube trabalhar muito bem essa divisão dentro da história. Existem depoimentos de testemunhadas, réus e boas discussões entre advogadas. O que é mais um incentivo para devorar o livro, enquanto uma rede de sussurros se forma e muda muita coisa.

Certa vez Ardie ouvira algo fascinante: as mulheres tinham um medo constante da violência; o maior medo dos homens era passar vergonha.

A escrita da autora é muito envolvente, sem dúvidas, nos prende. É um livro com um suspense, ao mesmo tempo que fala sobre relacionamentos, família, amigos. E sobre feminismo. Mas, não vire a cara ou torça os lábios. O objetivo do livro não é citar o movimento a cada página, ele praticamento nem é falado. O objetivo é dar voz as mulheres, fazer com que elas não se calem mais, que não aceitem menos do que merecem. Torno a dizer que ele vem na onda do movimento #MeToo e prova o quanto a união das mulheres é importante.

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Não quero também me estender, com medo de me tornar repetitiva, ao invés de te convencer a ler esse livro. Ele tem uma representatividade, mesmo que dentro de uma ficção, que é criada para nos intrigar e despertar. Vale o comentário de que a autora sabe do que está falando, por isso, leiam a ‘nota da autora’. Leiam tendo em mente que isso pode ter acontecido com ela, comigo, com você ou uma amiga. E que precisamos dar um basta. Ah, vale falar que esse livro, ainda que seja muito importante para mulheres, precisa e deve ser lidos por homens também.

Nosso legado seriam nossas palavras. Gritadas bem alto. Para todos ouvirem. Estaremos fartas de implorar que acreditassem em nós. Não pediríamos mais o benefício da dúvida. Não pediríamos mais permissão. A palavra era nossa. Ouçam.

Na parte da diagramação, a Intrínseca manteve a capa original. Por dentro, temos páginas amareladas, com letras e espaçamentos bons para a leitura. Eles dão certo destaque e diferença as partes que são testemunhos, matérias de jornais ou comentários. Os capítulos não tem sub títulos, mas sim datados de acordo com os acontecimentos. Além disso, como disse que o livro fez parte do Clube da Reese, aqui ele chegou como parte do Intrínsecos, numa versão exclusiva de capa dura, para os assinantes do clube da editora.

Rede de Sussurros vem com uma mensagem clara, mensagem que veio mais força junto com os movimentos #MeToo e Time’sUp: não vamos mais nos calar e vamos nos unir. Não iremos mais abaixar a cabeça e nos esconder, não vamos mais aceitar sermos diminuídas ou ameaçadas. Nós somos mulheres poderosas e capazes e ninguém tem o direito de querer que sejamos menos do que podemos ser. Bom, acho que já deu para perceber que o livro ganha as cinco Angélicas.

CLASSIFICAÇÃO 5 ANGÉLICAS

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