Resenha ‘Questão de Classe – Christina Dalcher’

Oi ooooi gente! Hoje venho com a resenha de Questão de Classe, da Christina Dalcher. Se esse Q vermelho em um fundo branco, te lembra algo, deve ter relação a capa de outro livro dela, o maravilhoso Vox. Por ter amado o primeiro livro da autora, assim que esse foi anunciado, eu sabia que precisava dele o mais rápido possível. Ainda que não tenham ligação, novamente somos apresentados a um mundo distópico. E, mais um vez, me peguei questionando se os acontecimentos estão presos apenas na ficção. Antes de falar mais, fiquem com a sinopse…

Em um mundo onde é preciso ser perfeito, como você se sairia?
É impossível saber o que você faria…
O potencial de todas as crianças é determinado por seu número Q. Uma pontuação alta dá acesso às melhores escolas e a um futuro brilhante. Aquelas que não obtêm a nota mínima são enviadas para um internato, sem muita perspectiva de vida.

O objetivo é construir uma sociedade melhor: custos baixíssimos para o governo, professores dedicados a classes separadas por desempenho e pais felizes por verem seus filhos convivendo com seus iguais.
… se levassem seu filho para longe de você.
Elena Fairchild é professora de uma escola de elite. Quando sua filha de 9 anos tira uma nota baixa, é forçada a ir para uma instituição a milhares de quilômetros.

Como educadora, Elena pensava entender o funcionamento do sistema em camadas. Como mãe, sua perspectiva muda para sempre. Ela só quer a filha de volta.
E vai fazer o inimaginável para recuperá-la.

Elena Fairchild é uma professora em uma escola prateada, onde estão presentes apenas alunos com o Q acima de nove. Na atual sociedade em que eles estão, as escolas estão saturadas, os professores escassos e cansados, por isso, eles passaram a separar as pessoas em escolas prateadas, verdes ou amarelas, para que os alunos possam receber a atenção e os ensinamentos que precisam. El acompanha os dilemas de crianças e adolescentes com medo de que suas notas caíam e eles sejam obrigados a trocar de instituição.

Ela, inclusive, passa por isso na sua casa. Sua filha mais velha, Anne, é uma excelente aluna e estuda em uma escola prateada. Seu marido tem verdadeira adoração pela primogênita, passam horas conversando e ele demonstra total interesse em tudo o que ela tem para dizer. Só que eles também tem uma filha mais nova. Freddie tem apenas 9 anos e estuda em um escola verde. Nas sextas específicas, é feita a prova em que os conhecimentos são testados, a criança fica muito ansiosa e tem certeza que não se sairá bem. Como mãe, Elena sente o sofrimento da pequena e tenta apoiá-la como pode.

Começou com o medo e terminou com as leis.

Nessa sexta, tudo irá mudar. As notas de Freddie vão para 7.9 e isso significa que ela precisa ir para uma instituição amarela, a quilômetros de distância de casa. Elena implora para que Malcom, seu marido, interfira nisso, afinal, ele trabalha com a secretária de educação. Mas o homem diz que não pode fazer nada, ainda mais que isso iria desmoralizá-lo. Ela se revolta com esse descaso e piora quando precisa ir a casa de seus pais, levar a filha para se despedir. Eles não aceitam essa situação e sua avó parece mais ainda transtornada, contando histórias confusas do passado, mas sendo clara em uma coisa: Freddie não pode ir para a escola amarela.

Ainda que fique absurdamente abalada com toda a situação, Elena não vai desistir de sua filha sem lutar. Então, começa arquitetar um plano para que seja enviada para a mesma escola em que Freddie está e, assim, tirá-la daquele lugar. Quando conseguir chegar no Kansas, vai perceber que as coisas são muito diferentes do que ela pensa e do que são divulgadas. Junto com outras duas professoras que chegam com ela, começam a ler e encontrar documentos que provem que por trás dessas instituições e dos planos de governo, estão coisas terríveis. E El precisa arrumar um jeito de salvar não só a sua filha, mas muito mais gente.

[…] na minha filha a ponto de ser perdida para um sistema que eu ajudei a criar por meio de cada comentário esnobe e cartão dourado lustroso de privilégio.

Me interrompendo, antes que solte algo sobre o plot em si, vamos falar sobre os personagens. Elena é uma pessoa que parece ser muito submissa, mas que tem um motivo por trás. Ela nos deixa bem claro que não sente nada pelo marido, mas é obrigada a manter o casamento, tudo em nome das filhas. Afinal, como tudo depende do Q e isso dita não só o futuro acadêmico, mas também decisões sobre quem fica com guarda, ela está presa nesse relacionamento. Mas é seu lado mãe que tem um poder gigantesco. Desde a gravidez ela vem protegendo Freddie do mundo externo e, mesmo que doa nela precisar pensar mais em uma filha do que na outra, ela não vai hesitar em seguir fazendo isso. Além de tudo isso, ainda se culpa por atos do passado, em que não agiu corretamente e, de certa forma, ajudou a separar as pessoas nas escolas, ainda que nem de longe tenha sido o que ela pensou inicialmente.

Freddie é uma criança que no dá vontade de colocar em um potinho e proteger do universo. É muito fácil entender todo o instinto protetor que El tem por ela. Anne, a filha mais velha, pode parecer esnobe por um lado, mas também percebemos que ela é apenas uma adolescente e que sente o que a irmã está passando. Mas, sem dúvida alguma, Malcom é o lado desprezível da família. Ele é um verdadeiro imbecil, que só liga para a filha que tem destaque com seu Q. Fico me perguntando se Christina está determinada a sempre nos fazer ter uma raiva dos maridos.

Sempre fizemos isso, nós seres humanos, em nossas pequenas sociedade. Categorizamos, comparamos e inventamos formas de nos segregas em times, como na aula de educação física da escola. Escolho você, dizemos. Mas não ele. 

Preciso falar que me tornei fã da Christina lá em Vox. Durante a pandemia, em uma live com ela, no Instagram da Arqueiro, foi anunciado esse livro e eu já sabia que eu precisava dele. Mais uma vez, a Christina vem com uma escrita absurdamente envolvente e absurdamente incomoda. Se da outra vez ela usou a religião como base, dessa vez, ela usou o movimento eugenista. A ideia atrás de uma população perfeita, onde qualquer tipo de minoria não estava mais sendo bem vinda. E, o interessante é que ela não falou apenas de atos de Hitler, mas citou até mesmo acontecimentos pouco conhecidos dos Estados Unidos. Isso nos faz refletir muito, principalmente sobre o que é aceitável no conceito e a necessidade de perfeição. Na nota da autora, Dalcher diz que seu objetivo é nos perturbar e, sem dúvidas, isso é feito. Mas de um jeito que faz com que a gente sinta vontade de devorar as páginas para saber o que vai acontecer a seguir.

Ainda que seja um paralelo diferente do traçado em Vox, esse livro também se faz necessário. Quando li que Christina Dalcher estava sendo tratada como a Margaret Atwood da atualidade, ficou claro o porque disso. Suas heroínas são fortes e seu mundo é cruel. Porque, mesmo que aqui as mulheres possam falar a vontade, elas também saem perdendo em um outro lado. Mães perdem seus filhos, mulheres precisam ficar em relacionamentos… Além disso, preciso dizer que de certa forma, visitando o passado de Elena, Dalcher também trabalha a temática do bullying e o quanto isso pode afetar o ambiente escolar e pessoal.

– Você deveria ter escutado história, sua escrota. Não sabe que ela se repete?
– O que você disse?
– Você escutou. 

Sobre a diagramação, a Editora Arqueiro manteve o padrão criado para a autora, tornando assim, a capa diferente da original. Como disse na introdução, temos o Q em vermelho e de forma marcante, e uma pequena Freddie. Os capítulos são numerados, as páginas são amareladas. Espaçamento e letras confortáveis para a leitura. Para quem comprou em pré-venda, ainda recebeu como brinde um marcador metálico em forma de Q.

Questão de Classe vem para confirmar a autora incrível que Christina Dalcher é. Como a própria diz, não podemos fechar os olhos para os capítulos mais sombrios da história do país e ela ainda usa para criar uma trama incrível e chamar atenção para um passado infeliz. Sem dúvida, deixo minhas cinco Angélicas e fico no aguardo pelo próximo livro que vai me arrasar, mas que tem o seu lado maravilhoso.

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