A Hora do Chá: ‘O Lorde Que Eu Abandonei – Scarlett Peckham’

Oi gente! Estou de volta na minha amada coluna de romance de época. Hoje é dia de abordar um livro bem polêmico e cheios de tabus, e não poderia ser diferente, já que faz parte da série Segredos De Charlotte Street. Quando soube que o terceiro livro da série traria o lorde-tenente, que tanto atormentou os personagens dos primeiros livros, me preparei para desconstruir a imagem que a autora tinha criado dele, ainda mais por saber que a mocinha seria uma mulher que trabalha no clube mais secreto da Charlotte Street. Um casal improvável e que a cada página, eu ficava mais curiosa para saber como esse relacionamento se desenvolveria. Enfim, já falei demais nessa introdução, então fiquem com a sinopse…

“O lorde-tenente Henry Evesham é um homem religioso que está investigando as “transações carnais” em Londres. Suas visitas a casas de má reputação o deixam ávido por ajudar as pessoas que perderam a inocência para o vício. Ao mesmo tempo, circular nesse ambiente é um desafio à sua promessa de se manter longe das tentações.
Alice Hull é uma jovem nascida no campo que trabalha como aprendiz em um clube privativo. Enquanto se entrega ao turbilhão de ideias e prazeres provocadores da capital, uma tragédia faz com que ela precise desesperadamente voltar para casa.
Quando o belo e piedoso Henry lhe oferece a única carona possível em meio a uma nevasca, ela sabe que não tem como recusar, mesmo que não confie nele.
Ao viajarem juntos, as suspeitas mútuas que nutrem aos poucos se transformam em um desejo inesperado. Só que Henry representa uma ameaça às pessoas que Alice ama, e ela, por sua vez, poderia acabar com a reputação dele se o lorde-tenente se permitisse chegar perto demais.
O problema é que, quanto mais tempo passam juntos, mais difícil é manterem as mãos longe um do outro.”

Henry Evesham ficou muito conhecido em Londres após liderar, através de seus textos na Santos & Sátiros, a exposição dos nobres que se envolviam em atividades consideradas imorais e pervertidas. Sua fama lhe deu o cargo de lorde-tenente e o título lhe dava a responsabilidade de pesquisar e montar um relatório que ditaria o futuro de casas e clubes privativos exclusivos para o prazer. Ele, como um homem muito religioso, aceita o cargo e começa a busca pelos antros de pecado. E o primeiro e mais polêmico deles é justamente o clube de chicoteamento de Sra. Elena Brearley, no número 23 da Charlotte Street, que foi muito exposto na última temporada londrina.

“A missão dele era um chamado de Deus, e ele sentia-se grato pela oportunidade de fazer uma obra que teria consequências morais duradouras.”

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Ele é um reverendo, mas ainda sim precisará visitar esses lugares e numa dessas visitas ao clube na Charlotte Street, ele conhecerá Alice Hull, uma moça que serve como uma das recepcionistas, mas também é uma faz tudo do clube. Como ela está em treinando para ser uma das governantas, ou seja, uma das mulheres que aplicarão os castigos/sessões de prazer nos sócios, Elena a designa para guiar Henry pelo lugar. Mas além do tour ser demais para os padrões de castidade do homem, Alice desperta sensações diferentes nele e, quando acreditava que nada do que lhe fosse mostrado no clube pudesse fazer o sacerdote ter pensamentos pecaminosos, eis que a moça lhe mostra um quarto que é chamado de capela.

O lorde-tenente não aguenta olhar para aquele local e saber que ele está destinado a outro propósito que não o de orações e acaba abandonando o clube e deixando Alice parada no meio da capela sem entender nada. Na verdade, ela entende e o intuito dela era justamente chocar o reverendo e fazê-lo fugir dali. Alice é uma moça do interior que chegou em Londres logo depois que o pai faleceu. Deixou para trás as irmãs e a mãe, mas seus desejos e ambições eram muito maiores do que o pequeno vilarejo que cresceu. Sem falar que, se casar e se tornar apenas a esposa de alguém, não faz parte de seus planos. Quando ela veio trabalhar na Charlotte Street, a moça enxergou um mundo de possibilidades e em todas, seria uma mulher livre.

Mais os destinos do lorde-tenente e de Alice vão se cruzar novamente. Depois que saiu praticamente fugido do clube, Henry volta para conversar com a Sra. Brearley e dizer que está pronto para escrever o relatório. Ele agradece a Deus por não ter sido Alice quem o recepcionou, já que desde a última visita vem tendo todos os tipos de sonhos pecaminosos e muitos envolvendo a moça e aquela capela. Só que foi muito cedo para agradecer, pois Alice interrompe a reunião para avisar Elena que precisará passar uns dias fora, pois a mãe está muito doente. Ela fica envergonhada ao ver quem estava na sala com Elena, mas ela precisa partir de Londres imediatamente.

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“Ela não estava pronta para deixar a Charlotte Street. Porque sabia – sempre soubera – o que significava ir embora dali. Seria uma espécie de morte. E ela não estava pronta pra isso.”

Henry como um bom cristão, se oferece para levar a moça até seu vilarejo, pois está indo na mesma direção, para fazer uma visita para sua família. Muito relutante, Alice aceita a carona e então os dois partem numa viagem que mudaria tudo para ambos. Duas pessoas completamente opostas se veem ‘obrigadas’ a cruzar o país o mais rapidamente possível, mas o destino queria mantê-los juntos por mais tempo que o necessário. E logo várias coisas vão atrasando a chegada deles em seus destinos. Entre tempestades de neve e até mesmo uma parada na casa da família de Henry, os dois personagens vão se aproximando e mostrando que por mais que tenham perspectivas de vidas completamente diferentes, há algo os mantendo unidos.

Eu contei muito pouco sobre a trama, pois basicamente tudo acontece após eles embarcarem para o interior da Inglaterra. Esse livro tem uma história muito mais densa, pois aborda um tema bem mais tabu e polêmico e já era de se esperar que não agradece todo mundo. A Scarlett foi muito corajosa de trazer como um desses plots um religioso lutando entre o desejo e a fé. Logo no início do livro já vem o aviso de que talvez a temática não agrade a todos, pois é bem complicado trazer a tona que religião dentro de um livro que é claramente um erótico dentro dos romances de época. Sem falar, que ela também escolheu criar uma mocinha que claramente seria o oposto do nosso reverendo. Não acho que ela tenha abordado o tema de forma desrespeitosa e apesar de achar que ela precisava levar um tempo descontruindo a imagem de Henry, em alguns momentos isso se tornou muito arrastado.

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Ao longo da viagem, Henry vai descobrindo que punir e/ou expulsar as pessoas que se envolviam com prostituição ou com prazeres consensuais seria muito difícil, pois muitos homens e mulheres das camadas mais altas da sociedade londrina estão envolvidos nestes atos. E isso ele já sabia, já que foi um dos responsáveis por expor Lord Apthorp no livro anterior, O Conde que Eu Arruinei. Além disso, o homem vê tudo que acreditava desmoronando, já que o caminho que tinha escolhido era se mantér na fé e encontrar uma boa moça para se casar e continuarem com as obras de Deus. Desejo carnal nunca este envolvido. Isso para ele sempre foi pecado, mas quanto mais fica perto de Alice, mais sente desejo por ela. O tipo desejo incontrolável e que o coloca em permanente conflito.

“O reverendo Keeper o aconselhara a contrair matrimonio com urgência, para evitar mais um lapso tórrido. Melhor casar, Henry, do que arder.

Falar de O Lorde que Eu Abandonei é falar de Henry Evesham, um homem que foi antagonista nos livros anteriores e até mesmo na sua própria história. Confesso que adorei que Scarlett tenha construído aquele que poderia ser chamado de ‘vilão’ da série, para depois contar a sua história. Foi incrível acompanhar seus dilemas e tentar entender um pouco de sua personalidade. E eu não posso deixar de comentar sobre a aparência do personagem. Eu não sei porque, mas imaginava Henry como um homem velho, baixo, rabugento, de aparência comum e infeliz. Ele realmente não é completamente feliz, já que julga a todos e a si mesmo, mas eu não estava preparada para saber que ele era um homem bonito e jovem. Sei lá, acho que minha parte religiosa queria colocar ele numa categoria não desejável rs.

E o protagonismo se completa com Alice Hull. Ela tinha o sonho de ser musicista e foi muito incentivada pelo pai, mas quando ele morreu, seu sonho morreu junto. Ninguém mais apoiaria uma mulher a ter uma carreira musical e ser respeitável ao mesmo tempo. E digamos que desde muito jovem, ela nunca quis ser respeitável. Alice descobriu os prazeres e nunca viu problema em explorá-los, mas é claro que isso não foi bem visto pelo povo de seu vilarejo. Quando surgiu a oportunidade de sair de lá, ela partiu sem olhar para trás e foi viver sem regras, onde poderia ter o prazer que quisesse sem julgamento, mas isso poderia acabar caso sua mãe morresse e deixasse as irmãs sob sua guarda.

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“Liberdade para governar um reino que fosse seu, cercada por pessoas que se encantavam com sua excentricidade, em vez querer mudá-la.”

O corpo de secundários neste livro é muito pequeno, mas são importantes para fazer com que nossos protagonistas se unissem. Primeiro temos a família odiosa de Henry. Ok, nem todos. O Sr. Evesham nunca perdoou o filho por ter seguido o sacerdócio e não os negócios da família. Por muitos anos, Henry se manteve afastado, mas recebeu um convite para participar do batizado do sobrinho e por isso estava indo na mesma direção de Alice. Ele acreditou que a família, realmente, gostaria de sua presença lá, mas o pai queria que ele se casasse com uma moça para salvar os negócios da família. Já Alice foi atraída pela doença da mãe e também sofrerá a frustação de ter seguido viagem pelos motivos errados. A bagagem emocional de ambos vai criar uma amizade e quando eles perceberem os sentimentos vão muito além de fraternal. Nossos protagonistas anteriores aparecem muito rapidamente e apesar de terem todos os motivos para julgarem Henry, são receptivos com ele.

“Se não puder amar um homem como eu, aceitarei sua escolha e desejarei a você felicidade e graça em qualquer caminho que venha a seguir. Mas, se me aceitasse, seria a maior honra construir uma vida a seu lado. Abertamente, sem desculpas, reconhecendo toda a complexidade em você, em mim e em nós.”

O Lorde que Eu Abandonei também chegou com sua capa original e, meu Deus, é PERFEITA. Ela combina completamente com a história. É como se eu estivesse vendo Alice com o uniforme do clube. A Editora Arqueiro acertou em manter as capas originais e acertou mais ainda em mandar um brinde em todos os livros. Um mais lindo do que o outro, mas pra mim a chave ainda é o que mais combina com a série, pois os sócios do clube recebem uma. É como seu cartão de entrada. A edição, tem a diagramação simples e padrão da editora, então temos fonte e espaçamentos confortáveis para a leitura, além de páginas amareladas. Aparentemente este seria o terceiro e último livro da trilogia, mas na nota da autora, ela revela que deseja escrever um livro sobre Sra. Elena Brearley e eu confesso que dei uma surtadinha com essa possibilidade.

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O casal mais improvável para um romance de época, um homem religioso e pudico e uma mulher que conhece os desejos da carne, papeis invertidos já que estamos acostumados a ver mocinhas inocentes e homens experientes neste tipo de história. O Lorde que Eu Abandonei é um livro bem mais difícil de se apaixonar, pois é mais arrastado do que os anteriores, mas ganha muitos pontos por ser algo completamente diferente. Os pensamentos do próprio Henry abrem muitas discussões sobre o que é proibido ou não, de como o preconceito dele era muito maior do que o conhecimento e que não precisa ser alguém sem fé para se entregar a luxuria. Enfim, Scarlett Peckham vem pegar mais 5 Angélicas. Uma trilogia perfeita e ponto final.

CLASSIFICAÇÃO 5 ANGÉLICAS

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