Especial Halloween: ‘Missa da Meia-Noite – 1ª Temporada’

Oi gente! Ontem (31/10), uma parcela muito grande de pessoas comemoraram o Halloween – teve matéria aqui no blog e explicação da origem da data -, e hoje (01/11) celebramos o Dia de Todos os Santos, uma data em homenagem a todos os santos conhecidos ou não pela igreja no decorrer dos anos. Segundo estudiosos, a data teve a origem, justamente, no Halloween. Os celtas acreditavam que os mortos vinham visitar seus familiares no dia 31 de outubro, mas também tinham os espíritos que usavam o dia para atormentar os vivos, então para se proteger, as casas eram decoradas com coisas, como ossos e caveiras, para espantar os visitantes do além. Esse povo tinha uma proximidade com o cristianismos, então a Igreja Católica, liderada na época pelo Papa Gregório III, ‘cristianizou’ essas práticas pagãs criando a festa de Todos os Santos no dia 1º de novembro, como uma forma de afugentar os maus espíritos e purificar o ambiente se preparando para celebração de finados (02/11).

Mas porque estamos falando sobre tudo isso? Porque o escolhido do Especial de Halloween de hoje tem tudo a ver com religião, fé e até mesmo paganismo. Missa da Meia-Noite (Midnight Mass) é uma série de terror que usou muitos elementos relacionados à fé para, na verdade, falarmos de amor e perdão, e vida e morte. Para quem não conhece a série, ela é o novo trabalho de Mike Flanagan, conhecido no streaming pela antologia A Maldição da Residência Hill e A Maldição da Mansão Bly. Essa nova produção prioriza mais o terror pessoal e sua relação com fé do que um terror, num sentido de aterrorizar. Isso não quer dizer que este elemento foi deixado de fora, mas que há muita outras maneiras de assustar do que criar uma forma abstrata para criar medo. Enfim, fiquem com a sinopse e trailer…

“Na trama, Riley Flynn (Zach Gilford) retorna para sua cidade natal depois de anos e esconde um passado sombrio. E com a chegada de padre Paul (Hamish Linklater), um homem carismático e misterioso, nessa comunidade costeira e isolada, eventos milagrosos e presságios assustadores começam a acontecer, causando comoção entre os moradores da pequena ilha.”

Missa da Meia-Noite chegou à Netflix no dia 24 de setembro e ficou umas duas semanas entre os mais assistidos do streaming. A temporada chegou mais curta que o ‘padrão’ do serviço, mas pra mim até isso tem ligação com o enredo que Flanagan abordou na série. Como estamos falando de uma trama que tem a religião como principal tema, acredito que fazer uma temporada de sete episódios faz total sentido. Segundo Gênesis, Deus criou o mundo em seis dias e no sétimo, ele descansou. Sendo assim não é surpresa que o primeiro episódio receba justamente o título de Livro I: Gênesis e todos os demais episódios são nomeados como livros. Mas diferentemente do sétimo dia de Deus, onde ele descansou, para população da Ilha de Crockett as coisas não estavam neste patamar de paz e tranquilidade.

O retorno de Riley Flynn à ilha é um dos primeiros fios condutores da trama. O rapaz nascido e criado no pequeno vilarejo pesqueiro, deixou tudo para trás assim que pode, mas acabou precisando voltar da pior maneira. Riley vivia uma vida de excessos e numa dessas noites regadas a muita bebedeira, ele se envolve num acidente de trânsito e a motorista do outro veículo acaba morrendo. Ele é condenado a quatro anos de prisão, e após o período de reclusão, vai voltar a viver na casas dos pais na Ilha de Crockett. Ainda sim não está livre de sua dívida com o estado, já que precisará voltar ao continente semanalmente para a reunião do AA. Mas nada pesa mais do que ter que voltar a viver num lugar que tem apenas 127 habitantes, pessoas que o conhecem desde sempre e que vão julgá-lo pelo crime que cometeu.

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Mas sua chegada vai culminar com a de Padre Paul Hill, o novo sacerdote que veio para substituir o amado Monsenhor Pruitt. Inicialmente a comunidade vai receber a chegada desse homem misterioso de uma forma receosa, mas logo se sentirão envolvidos pelo carisma do padre, que logo vai mostrando que veio para purificar seus fiéis. Uma tempestade se aproxima e vemos a população se organizando para lidar com possíveis danos e a igreja de Saint Patrick sempre foi a responsável por receber os desabrigados. A beata Beverly Keane (Samantha Sloyan) faz questão de lembrar a todos disso, principalmente o Xerife Hassan (Rahul Kohli), um homem mulçumano e que ainda é considerado um forasteiro, e pior ainda, um terrorista, por parte da população.

A cidade gira entorno da igreja, então demora muito para que os feitos de padre Paul comecem a se espalhar pela ilha. Milagrosamente, o sacerdote cura a jovem Leeza (Annarah Cymone). A menina era paralítica e a família tinha gastado tudo o que tinham no tratamento dela, mas como sabemos uma lesão na medular espinhal ainda é incurável pela medicina. Porém, diante de uma de suas missas, o padre diz a moça para que ela suba ao púlpito para comungar. É claro que a reação de todos é de indignação diante da fala do homem, mas Leeza acredita nas palavras dele e subitamente se levanta de sua cadeira de rodas. Ela está caminhando para receber o corpo e o sangue de Cristo. Mas como isso é possível? Como uma faísca, a notícia se espalha pela ilha e a cada dia vamos acompanhar o número de fiéis crescendo, todos esperando serem tocados pela piedade divina.

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Eu não vou falar mais nada sobre a trama porque acredito que esta é uma série que tudo pode se tornar um spoiler importante, então vou falar da minha experiência assistindo. Missa da Meia-Noite tem uma das tramas mais bem construídas que assisti ultimamente, pois o telespectador consegue acompanhar o crescimento da história. Eu li algumas críticas falando que era lenta, chata e até que abandonou, mas eu acho que o impacto se torna maior justamente porque Flanagan foi nos levando lentamente até seu último episódio que não poderia receber outro título que não Livro VII: Apocalipse. Estamos diante de uma geração que quer tudo ‘mastigado’, sem necessidade de analisar os fatos, então não esperar o crescimento desse enredo, é perder uma ótima experiência. Durante cada um de seus episódios, a fé dos personagens são testadas e em vários momentos tivemos diálogos intensos sobre religião e fé. E falando de diálogos, eu acredito que um dos pontos alto dessa trama seja justamente as conversas entre os personagens ou até mesmo os sermões de padre Paul.

E para elevar esses diálogos temos um elenco fantástico. É impressionante a força da interpretação de todos eles, começando por Zach Gilford. O único trabalho do ator que eu já tinha visto que não era mais voltado para comédia foi Uma Noite de Crime 2: Anarquia, mas eu só fui me lembrar bem depois de começar a assistir a esta série. É muito diferente ver a interpretação dele aqui e acredito que ele deu vida a Riley de uma maneira maravilhosa. Seu personagem é um homem perdido, tentando lidar com o trauma de tirar a vida de outra pessoa e assim como a maioria das pessoas, ele tenta encontrar conforto em sua fé. Durante todo o período que ficou preso, ele leu todos os livros que falavam de religião, mas no final decidiu por ser ateu. No episódio 4, ele tem um dos maiores diálogos sobre o que a morte e para onde vamos após nosso corpo terrestre morrer. Foi fantástico ver o ponto de vista de seu personagem ateu falando sobre aconteceria a ele no momento de sua morte.

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A outra ponta dessa conversa ficou para Kate Siegel. Eu só digo uma coisa: que mulher!! Eu realmente não lembro de ter visto nenhum de seus outros trabalhos, então fiquei impactada pela interpretação dela. Várias emoções se passam apenas olhando para o seu rosto. Ela interpreta Erin Greene, uma professora da única escola da ilha, mas é uma das pessoas que voltou ao local depois passar uma temporada fora. Ela também tem seu passado pesando, mas diferente de Riley, Erin acredita totalmente em sua fé. A personagem passará por um grande trauma e terá sua fé testada, basicamente durante toda a trama, mas vamos perceber a grandiosidade dessa mulher e ver o quanto Erin vai brilhar mostrando o que verdadeiramente é ter fé em Deus.

E não poderia não mencionar Hamish Linklater. Seu personagem tem um discurso tão convincente que a gente se sente envolvido por suas palavras. Seus sermões são tão poderosos que dificilmente não nós sentimos dentro daquela igrejinha. Hamish está incrível e é maravilhoso acompanhar o personagem conquistando a confiança dos habitantes e realizando seus ‘milagres’. Junto com padre Paul, temos a beata de Samantha Sloyan que impressiona não só pela caracterização, mas pelo seus conhecimento da Bíblia. Ela usa os textos bíblicos para manter os fiéis sempre ‘na linha’ e até mesmo distorce as palavras da maneira que lhe convém. Acredito que o diálogo entre ela e o xerife um dos mais fantásticos. A comunidade é predominante cristã, então a chegada de um muçulmano causa estranheza e pior ainda: começa a discriminação. A forma que o diretor que mostrar esse ‘confronto religioso’ foi maravilhoso porque ter fé não é apenas seguir uma religião.

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A maestria do trabalho de Flanagan nessa série está em cada detalhe e quem já acompanhou outros trabalhos do diretor não passou despercebido que uma grande parcela do elenco já trabalhou com ele em outras produções. Além disso temos alguns crossovers mínimos, mas que estão lá a começar por Kate Siegel. A atriz protagonizou Hush, onde interpretou o papel de uma mulher surda e autora de livros de terror. Seu último trabalho foi um livro chamado Midnight Mass. Esse mesmo livro aparece, muito rapidamente, numa das cenas do filme Jogo Perigoso, uma adaptação de Stephen King. E falando do Mestre do Horror, King elogiou a série em seu Twitter e tem um grande respeito pelo trabalho de Flanagan já que trabalharam juntos em algumas adaptações do autor. O respeito e a admiração são mútuos e só nos faz pensar que, talvez, ainda possamos ver muitos outros trabalhos dos dois juntos.

Eu não poderia encerrar essa crítica sem falar da fotografia dessa série. A ilha tinha tudo para ser um local ensolarado, mas Flanagan usou tons frios para trazer um ar melancólico como se realmente seus habitantes já tivessem perdido a esperança. Quando entramos na reta final há um momento onde os tons quentes são usados e eu vi aquilo justamente como esperança de salvação. Foi um trabalho impecável. E para encerrar, eu falei, logo no início, sobre a história não se basear em algo abstrato para causar medo, mas nós temos. Há algo, além de seus terrores internos que vocês só vão descobrir assistindo. Missa da Meia-Noite é uma série sobre fé e o quanto ela pode ser nosso farol nós momentos de dor, mas faz o debate entre fé e religião, onde a segunda pode se mostrar cega em muitos momentos. Achei interessante trazer a tona a ideia de um falso profeta, manipulando a fé de uma comunidade a seu bel-prazer. Enfim, se eu tivesse que fazer um crítica, eu falaria sobre o tamanho dos episódios que passam de 60 minutos, mas nem isso me incomodou realmente.

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